SBMFC entrevista Ricardo Heinzelmann

13 de novembro de 2020

Ricardo Heinzelmann é Médico de Família e Comunidade, mestre em Epidemiologia (UFRGS).  Professor do Internato em APS do Curso de Medicina da UFSM.  Supervisor do Programa de Residência em Medicina de Família e Comunidade da UFSM.  Diretor de Graduação e Pós-Graduação Stricto Senso da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC).

 

SBMFC: Na sua opinião, quais são as principais contribuições que a MFC pode dar para formar um médica/o? 

Ricardo: São muitas as contribuições. Estamos observando um grande avanço a partir da maior inserção da MFC no currículo médico. O olhar amplo sobre o processo saúde doença e as suas múltiplas determinações, a abordagem centrada na pessoa, a abordagem familiar e comunitária, o desenvolvimento as habilidades de comunicação clínica e o entendimento das dimensões subjetivas envolvidas na relação médico-paciente. A utilização da prevenção quaternária, bem como da epidemiologia clínica para tomada de decisões também tem sido uma contribuição importante da MFC no currículo médico.

Talvez o principal aspecto seja a presença dos estudantes no território onde as pessoas vivem. Entrar em contato direto com a realidade das pessoas, em especial junto às equipes de saúde da família desde o início do curso, identificar suas necessidades de saúde, tem gerado um importante impacto na formação médica, ainda mais quando isto está associado à defesa do nosso Sistema Único de Saúde – SUS. Os estudantes são inseridos na realidade de vida das pessoas, as situações de desemprego, violências, racismo. São aspectos que sem dúvida, contribuem para construção do percurso pedagógico do estudante. Normalmente essa inserção vem sendo guiada pela MFC.

 

SBMFC: Com relação ao currículo médico, em suas diretrizes atuais, qual a visão da diretoria de graduação e pós-graduação strito-senso? 

Ricardo: Temos importantes avanços. Observamos que as novas escolas médicas, principalmente aquelas que foram criadas a partir da Lei do Mais Médicos, conseguiram incorporar mais amplamente diversos aspectos das novas Diretrizes do Currículo dos Cursos de Graduação em Medicina.

Identificamos ainda alguns aspectos importantes que merecem maior destaque para aprofundamento. Entre eles, o internato em APS, que não necessariamente se traduz em um estágio em serviços de Saúde da Família e que tenha como preceptor médicos e médicas de família e comunidade. Outro aspecto é essa maior demanda de MFCs ao longo do curso, garantindo o chamado “role model” na formação médica. O processo longitudinal de inserção do estudante na APS ao longo dos semestres também precisa ser melhor debatido, pois nem sempre tempo em serviço de APS significa bom processo de ensino aprendizagem. Precisamos avançar para pensar a lógica desta inserção ao longo do curso.

 

SBMFC: Qual a importância da proximidade da diretoria de graduação e pós-graduação com entidades como Alasf, Denem e Ligas da Saúde da Família? Quais diálogos já se estabeleceram?

Ricardo: A nossa diretoria tem tido um grande prazer de manter um diálogo profícuo com a ABEM. Já tivemos algumas reuniões. Neste último Congresso Brasileiro de Educação Médica, já observamos um aumento importante da presença de diversos MFCs e residentes de MFC compondo mesas e atividades cientificas. Estamos em construção conjunta para avançar no debate sobre o Ensino Médico e o aumento da presença da MFC na Escola Médica.  Temos uma agenda conjunta sendo construída.

Da mesma forma, vem se dando o diálogo permanente com a DENEM e em especial com a ALASF. Participamos no Congresso onLine de Ligas Acadêmicas de Saúde da Família. A ALASF e a DENEM vêm tendo grande participação com ótimas contribuições no Ciclo de Debates sobre Ensino da MFC promovido pela diretoria da SBMFC.

A diretoria também está no momento construindo com as entidades estudantis a nova versão do Estágio de Vivência em MFC para 2021, com grandes novidades, que vão potencializar o eixo formação do projeto e a perspectiva interdisciplinar e em defesa do SUS.

Neste mês de outubro lançamos o 1º Prêmio SBMFC em defesa do SUS que vem mobilizando estudantes, principalmente das Ligas para construção de vídeos e mobilizando em torno da MFC.

 

 

SBMFC: A diretoria organizou um ciclo de debates com participação de diversas instituições de ensino médico. Fale mais sobre os objetivos desses eventos.

Ricardo: A diretoria planeja atualizar e aprimorar as Diretrizes do Ensino da APS e da MFC na graduação médica. Para tanto, estamos fazendo um amplo diálogo interinstitucional com a Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina (DENEM), Associação das Ligas Acadêmicas de Saúde da Família (ALASF) e Associação Brasileira de Educação Médica (ABEM).

Internamente na SBMFC, estamos com apoio do Grupo de Trabalho de Ensinagem e em importante colaboração com outros GTs e GIEs a exemplo dos GTs de Saúde Prisional, Saúde da População Negra, Sexualidade e Diversidade, GT Medicina Rural e o GIE Saúde Indígena.

O atual Ciclo de Debates vem promovendo a análise do acumulo que temos até aqui. Em 2021 iremos dar sequência aprofundando alguns temas específicos.

Nossa proposta é culminar no Congresso Brasileiro de MFC, em Vitória-ES em agosto, com a realização de um Fórum sobre Ensino da MFC na Graduação Médica onde vamos trabalhar e finalizar o documento final das Diretrizes sobre Ensino da MFC na graduação.

Estamos bem empolgados com todo este processo amplo de participação e que valoriza todo o acumulo que tivemos até aqui. Nossas atividades de webinares vem tendo ótima repercussão.

 

SBMFC: Sobre a pós-graduação, qual a visão da diretoria sobre a pós graduação stritosensu na área da Medicina de Família e Comunidade? 

Ricardo: Precisamos avançar muito mais nesta área. Precisamos de muito mais MFCs nas Universidades e Centros de Pesquisa. Temos necessidade de consolidar a MFC como área de conhecimento junto aos órgãos de fomento à pesquisa cientifica no país. Ampliar a oferta de vagas de Mestrado e Doutorado é importante. Neste sentido os chamados Mestrados Interinstitucional (MINTER) e Doutorado Interinstitucional (DINTER) são um caminho interessante. O ProfSaúde vem sendo uma iniciativa importante e hoje já temos muitos MFCs mestres em Saúde da Família ou cursando o mestrado na área, mas é necessário avançarmos para o Doutorado.

A SBMFC vai dialogar com o conjunto de instituições de ensino e pesquisa no país para fomentar a abertura de Programas de Doutorado em Saúde da Família e em especial Doutorado na Medicina de Família e Comunidade. Já temos iniciativas em curso de Rede de universidades no nordeste neste sentido. Queremos apoiar este movimento. Também ampliar o campo das relações internacionais da entidade na busca de parcerias com instituições estrangeiras que possibilitem o intercâmbio internacional no campo da formação de mestrado e doutorado na área de MFC.

Com isso teremos também como consequência a maior presença de MFCs como docentes na graduação médica e o aumento da produção cientifica brasileira nesta área.

 

SBMC: Deseja compartilhar uma mensagem aos associados? 

Ricardo: Estamos em um momento difícil da vida do país, mergulhados em meio a uma pandemia que além da morbimortalidade provoca imensos prejuízos sociais e econômicos. Neste cenário ainda vivemos um período de forte desmonte das políticas públicas de acesso universal à saúde, e à educação, somado ao nosso histórico de desigualdade de gênero, o racismo e lgbtfobia, a violência contra as mulheres, contra a população negra, população LGBT e indígenas. A Medicina de Família e Comunidade tem papel de destaque importante nestas múltiplas abordagens que vão muito além de uma simples oferta de consulta na lógica tradicional biomédica. Dentro da Educação Médica, mesmo com tantas adversidades, seguimos como docentes envolvidos nas ações pedagógicas/ assistenciais e trazendo este cenário complexo da realidade brasileira para formação médica.

Vamos juntos fortalecer este movimento da SBMFC. Cada um já promove mudanças na sua realidade que os cerca, mas sem dúvida, fará diferença na vida do país termos uma SBMFC forte, atuante, e com todas as letras um projeto claro em defesa do Sistema Único de Saúde, da Estratégia Saúde da Família, da Medicina de Família e Comunidade e da Educação Pública de qualidade, e que busque mais justiça social. Participe deste movimento!